O que uma lavoura de 1950 nos ensina sobre resiliência?
Quero iniciar esta reflexão resgatando uma memória afetiva sobre o meu pai, Valdir. Ainda muito pequeno, ele veio morar na região que hoje compreende o município de Pareci Novo (antigo distrito de Montenegro, no RS). Sua família havia comprado uma pequena propriedade rural, mas, como a renda era escassa e a família numerosa, decidiram buscar alternativas de mercado para diversificar o negócio familiar.
Foi assim que, por volta do ano de 1950, resolveram investir no plantio de pepinos em uma área de terras próxima ao Arroio Maratá. Com muito suor e esforço braçal, passaram mais de um mês desmatando a área a machado e serrote. O planejamento logístico e comercial previa levar a produção de pepinos, em carretas de bois até São Sebastião do Caí, onde seria vendida. Como já era quase verão, o plano parecia seguro contra as cheias do arroio — vale lembrar que, naquela época, não existiam previsões de tempo estendidas ou dados climáticos para diminuir riscos.
No entanto, em dezembro daquele ano, a natureza surpreendeu a todos. Uma grande enchente arrastou toda a plantação e, com ela, a perspectiva de receita e sustento da família para os meses seguintes.
Por que trago essa história? Porque ela me faz pensar na resiliência das gerações anteriores. Olhar para o passado nos mostra como os pioneiros enfrentavam desafios extremos e buscavam alternativas para sobreviver.
No ambiente corporativo, a resiliência vai além de “aguentar a pressão”. Ela é a capacidade que o indivíduo e a organização tem de enfrentar as adversidades, gerenciar riscos, buscar alternativas e, em seguida, desenhar um novo projeto de vida ou de negócios.
Desafios sempre existiram e sempre existirão. A forma como um líder ou colaborador gerencia essas situações conflitantes é o que realmente decide a continuidade de uma carreira ou de uma empresa. Afinal, a resiliência não nasce do nada: ela se constitui a partir do temperamento de cada pessoa, da cultura organizacional e, principalmente, da qualidade do suporte e dos processos disponíveis.
É justamente nesse ponto que encontramos um grande dilema na formação dos novos profissionais. Hoje, observamos uma tendência à superproteção de jovens e crianças, blindando-os de toda e qualquer frustração. Quando um aluno apresenta dificuldades de aprendizagem na escola, assume-se que a culpa é da professora. Quando ocorre um conflito entre jovens, os pais correm para protegê-los, transferindo a responsabilidade para o outro.
Essa cultura do “culpado externo” acende um alerta: se privarmos as novas gerações de lidar com pequenos erros e feedbacks construtivos, como esses futuros profissionais desenvolverão habilidades necessárias para liderar crises, aceitar metas audaciosas ou lidar com as frustrações naturais da vida?
Qual árvore que te representa?
Em seu livro Psicanálise e Resiliência, a psicanalista Malgarim ilustra brilhantemente a resiliência por meio da metáfora de árvores enfrentando uma tempestade. Ela nos apresenta três cenários:
- A árvore que se curva: Ela cede temporariamente à força do vento (à crise), mas não quebra, retornando exatamente ao seu estado inicial, assim que a tormenta passa.
- A árvore que resiste: Ela se recusa a curvar-se, não aceita as mudanças, mantém processos antigos com rigidez absoluta e corre o risco de quebrar de forma repentina.
- A árvore que se transforma: Ela modifica a sua própria estrutura com o impacto da tempestade, adaptando-se, aprendendo com o erro e escolhendo não retornar ao estado original.
Essa metáfora nos convida a uma autoavaliação. Como você e a sua empresa enfrentam as dificuldades no mercado, na gestão de equipes e nos momentos de crise?
Com qual dessas estruturas você se identifica hoje? Você é o profissional que se curva e volta a fazer tudo igual ao passado, o que resiste bravamente até que o mercado o torne obsoleto, ou o líder que se permite transformar diante das crises, transformando desafios em oportunidades, inovação e evolução contínua?
E, na vida pessoal, qual a árvore que você se identifica?
Rosângela Nunes
Rosângela Nunes é psicóloga clínica (CRP 07/12672), pedagoga e orientadora educacional, especialista em Metodologia do Ensino e Psicoterapia de Orientação Analítica. Construiu sua trajetória na educação como gestora escolar, coordenadora da educação infantil e de cursos técnicos em diferentes áreas. Hoje, reúne sua experiência em educação, gestão e desenvolvimento humano à atuação na psicologia clínica.