A Sony vai parar de produzir mídia física: o que muda quando a propriedade vira acesso
Título original na news: “Sony nunca mais vai vender. Vai alugar.”
Ir até uma locadora ou comprar um DVD era demorado. Apertar um botão e começar um filme ou jogo é instantâneo. A conveniência venceu, mas veio acompanhada de uma mudança silenciosa: estamos trocando propriedade por acesso. E quem controla esse acesso também controla a relação, os dados e as próximas ofertas feitas ao consumidor.
A Sony anunciou que deixará de produzir discos físicos para novos jogos de PlayStation a partir de janeiro de 2028. A justificativa faz sentido do ponto de vista operacional: cerca de 80% das vendas da companhia já acontecem no ambiente digital. Produzir discos exige matéria-prima, fabricação, estoque, distribuição e espaço no varejo. No digital, boa parte dessa estrutura desaparece. A margem melhora e a entrega se torna instantânea.
Só que o movimento não é apenas sobre reduzir custos. Ao eliminar o disco, a Sony também elimina relações que não controla. Não existe jogo usado, empréstimo entre amigos, locação ou revenda. Cada transação passa obrigatoriamente pela plataforma, que define preço, disponibilidade e condições de acesso. O produto deixa de circular livremente depois da primeira compra. Toda nova experiência precisa voltar para dentro do ecossistema.
A Sony está puxando essa conversa, mas ela não é apenas sobre videogames. É sobre uma disputa cada vez maior para controlar a última camada da relação: o consumidor final.
A Ambev passou décadas vendendo por meio de distribuidores, bares, mercados e restaurantes. Com o Zé Delivery, criou um canal direto. Além da venda, passou a enxergar frequência de compra, localização, horário, preferência, sensibilidade a promoções e ocasiões de consumo.
O iFood percorre uma lógica parecida. Primeiro, intermediou pedidos. Depois, passou a conhecer profundamente o funcionamento dos restaurantes: quanto vendem, quando vendem, qual é a recorrência, como varia o faturamento e qual é a capacidade de pagamento. Essa inteligência abriu caminho para conta digital, meios de pagamento e crédito personalizado.
O Mercado Livre talvez seja um dos exemplos mais completos. A empresa começou conectando compradores e vendedores, mas construiu um ecossistema que reúne marketplace, publicidade, logística, pagamentos, cartão e crédito. Ela sabe o que as pessoas procuram, o que compram, quanto pagam, quem vende bem e quais negócios apresentam potencial de crescimento. Com isso, consegue oferecer dinheiro quando o vendedor precisa reforçar o estoque ou o consumidor demonstra intenção de compra.
Esse é o verdadeiro ativo por trás das plataformas: não apenas os dados isolados, mas a capacidade de qualificá-los. O dado mostra o que aconteceu. A inteligência ajuda a prever o que pode acontecer depois.
Na prática, quem controla o canal direto deixa de depender exclusivamente da leitura de terceiros. Consegue testar preços, personalizar ofertas, reduzir o risco de crédito, antecipar comportamentos e desenvolver novos produtos com mais precisão. O negócio inicial vira uma porta de entrada. A receita futura pode surgir de publicidade, serviços financeiros, assinaturas, logística, seguros ou soluções que ainda nem foram apresentadas ao mercado.
Olhando de forma transversal, o fim do disco é só a parte visível de uma transformação maior. Muda a noção de propriedade, muda o mercado secundário, muda a margem e, principalmente, muda quem possui inteligência sobre o consumidor. No novo jogo, o maior poder talvez não esteja em fabricar o produto. Está em controlar o acesso, observar o comportamento e transformar cada interação em uma nova oportunidade de negócio.
A pergunta que fica é: sua empresa está apenas vendendo ou está aprendendo alguma coisa relevante a cada venda?
Filipi Erthal
Filipi Erthal é fundador da Erthal&Co, desenvolvedora de negócios com base no Instituto Caldeira, em Porto Alegre. Por quase seis anos tocou um posto de combustíveis em Montenegro. Tem trajetória em varejo, indústria e negócios próprios, formação em Administração e pós em Neurociência e Comportamento. Hoje atua como parceiro estratégico de líderes que constroem no mundo real.