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O que “O Diabo Veste Prada” diz sobre quase todo mercado

Título original na news: “O que “O Diabo Veste Prada” diz sobre quase todo mercado”

Por Filipi Erthal, fundador da Erthal&Co··Publicado no Mapa do Caos

Sim, vou falar sobre filme. Na finaleira de domingo, naquela rolagem infinita para decidir o que assistir, acabei parando numa versão atualizada de um clássico (se posso chamar assim), O Diabo Veste Prada. E o que era para ser só um filme virou uma aula de percepções transversais sobre comportamento, mercado, trabalho e tecnologia. Vale assistir de forma ativa, porque tem muita coisa acontecendo além da história principal.

O filme já começa cutucando um modelo que conhecemos bem: o poder da mídia tradicional de decidir o que merece atenção. Esse poder não desapareceu, mas foi fragmentado. Hoje consumimos informação por redes sociais, creators, newsletters, podcasts, algoritmos e, cada vez mais, inteligência artificial.

Na moda acontece algo parecido. As grandes marcas continuam fortes, mas tendências nascem e morrem numa velocidade absurda. O consumidor ganhou voz, referências e poder de comparação. Já não depende de uma revista ou de meia dúzia de pessoas dizendo o que é bonito, desejável ou relevante.

Essa descentralização é ironizada durante o filme. Durante muito tempo, aquele mercado funcionou justamente porque poucas pessoas concentravam o poder de definir tendências. Hoje, parte desse poder foi pulverizada, e outra parte foi transferida para plataformas, algoritmos e comunidades. Saímos de poucos curadores para milhões de estímulos personalizados.

E aí entra a IA.

Se uma máquina consegue gerar uma modelo, criar uma campanha, sugerir um layout, escrever um texto, editar uma fotografia e produzir dezenas de variações de uma peça em minutos, o que acontece com toda a cadeia criativa construída ao redor disso?

Não significa que estilistas, modelos, fotógrafos, designers ou jornalistas vão simplesmente desaparecer. Acho essa leitura simplista. Mas o valor desses profissionais inevitavelmente precisa ser repensado. Quando produzir fica barato, rápido e abundante, talvez o raro passe a ser repertório, sensibilidade, opinião, curadoria e capacidade de criar algo que realmente tenha significado.

E aqui a discussão sai da moda.

O mundo executivo também aparece atravessado por essa transformação. A relação com liderança, cobrança, carreira e trabalho mudou. Aquilo que durante décadas foi vendido como símbolo de alta performance (disponibilidade absoluta, pressão constante, hierarquia rígida e sacrifício pessoal) hoje é questionado.

Só que aqui tem uma pegadinha.

Talvez tenhamos saído de um extremo em que quase tudo era permitido em nome da performance para outro em que líderes precisam medir cada palavra, empresas tentam acomodar expectativas muito diferentes e conversas difíceis ficam ainda mais difíceis de acontecer. A resposta não está em romantizar o modelo antigo, muito menos em transformar qualquer cobrança em algo negativo. O desafio é descobrir como manter ambição, excelência e responsabilidade dentro de uma cultura que mudou.

E isso conversa diretamente com consumo.

As pessoas estão revendo o que compram, onde trabalham, quem seguem, quais marcas admiram e até aquilo que consideram sucesso. Uma grife já não disputa atenção apenas com outra grife. Talvez parte do dinheiro que antes era investido em uma peça cara hoje esteja indo para viagens, gastronomia, corrida, wellness, experiências e lifestyle. O símbolo de status também está mudando.

Mas uma das reflexões mais interessantes aparece quando o filme fala sobre o preço das escolhas.

No final, Miranda traz uma fala pesada sobre o que precisou abdicar para chegar onde chegou. Existe ali uma provocação importante sobre ambição. É muito fácil olhar uma trajetória pronta e julgar o resultado sem conhecer o preço, as escolhas, as renúncias e os anos de construção que existiram por trás dela.

Ao mesmo tempo, existe um incentivo a assumir responsabilidade pela própria trajetória, construir opinião, desenvolver análise crítica e conquistar espaço. Ficar apenas reagindo ao sistema também tem um preço. Assim como carregar ressentimento e alimentar uma vingança por anos pode consumir muito mais quem sente do que quem deveria recebê-la.

Olhando de forma transversal, O Diabo Veste Prada funciona como uma fotografia de vários mercados sendo obrigados a rever seus códigos ao mesmo tempo. Moda, mídia, tecnologia, liderança, carreira, comportamento e consumo parecem assuntos diferentes, mas estão atravessados pela mesma transformação.

Filipi Erthal

Filipi Erthal

Filipi Erthal é fundador da Erthal&Co, desenvolvedora de negócios com base no Instituto Caldeira, em Porto Alegre. Por quase seis anos tocou um posto de combustíveis em Montenegro. Tem trajetória em varejo, indústria e negócios próprios, formação em Administração e pós em Neurociência e Comportamento. Hoje atua como parceiro estratégico de líderes que constroem no mundo real.

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