Orgulho gaúcho: o que o bairrismo ensina sobre pertencimento e marca
Título original na news: “Ah, eu sou GAÚCHO.”
Peço perdão àqueles que não são, mas falar sobre orgulho de ser gaúcho é falar de algo que vai muito além de nascer no Rio Grande do Sul. É pertencer a uma cultura que faz questão de demonstrar, de voz firme e alta, o orgulho que sente da própria terra.
E isso sempre me chamou atenção. Não sei quantas culturas conseguem reproduzir um movimento parecido com o nosso. A gente canta o hino no estádio, canta em shows, em festivais... Começam os primeiros acordes e todo mundo sabe o que fazer. E quando chega o “sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”, parece que a voz fica ainda mais forte.
Tem bairrismo? Claro que tem. E acho que existe algo muito bonito nisso.
Porque esse bairrismo, quando não significa se considerar melhor do que os outros, representa pertencimento. É uma comunidade dizendo que conhece sua história, valoriza suas origens e não tem vergonha de demonstrar isso. Em um mundo cada vez mais globalizado, acelerado e parecido, ter uma identidade tão forte é um baita diferencial. E é algo que precisamos preservar.
Talvez por isso essa reflexão também tenha mexido comigo de um jeito mais pessoal. Pelo ritmo que a vida foi tomando e pelos diferentes movimentos dos últimos anos, acabei me distanciando de um contato com a tradição que foi muito presente durante um longo período da minha vida. E, quando olho para trás, percebo o tamanho da importância que aquilo teve na minha formação.
Tenho muito a agradecer à minha família por ter me aproximado desse universo desde pequeno. Lembro da minha primeira égua, a Petiça, das experiências que vieram depois e, claro, não posso deixar de falar do Nando, que me ensinou a laçar, me levou ainda mais para dentro da tradição e do mundo dos rodeios.
Talvez um pouco do que ficou daqueles anos esteja resumido em um verso de César Oliveira e Rogério Melo, em “Apaysanado”: “Talento, fibra e coragem, não se compra, nem se empresta.”
Porque tradição também ensina valores sem necessariamente sentar para ensiná-los. Está na convivência, na palavra, no respeito, na coragem, na responsabilidade e nas histórias que a gente observa antes mesmo de entender o tamanho delas. São coisas que acabam entrando na nossa formação e que, anos depois, percebemos que continuamos carregando.
Tenho saudade disso. Saudade desse movimento, dessa convivência, desse contato mais próximo com uma parte tão importante da minha história. E está entre as minhas metas de vida conseguir me organizar para voltar a viver um pouco mais disso. Não apenas como nostalgia, mas como continuidade.
E, se Deus me abençoar com filhos no futuro, essa é uma das coisas das quais não quero abrir mão. Quero que eles tenham a oportunidade de conhecer essa cultura de perto, viver o campo, entender nossas tradições, ouvir nossas histórias e construir as próprias memórias. Depois, naturalmente, poderão escolher o quanto disso vão carregar.
Porque algumas coisas realmente são difíceis de colocar em uma planilha, explicar ou atribuir preço. Luiz Marenco canta em “Pra o Meu Consumo”: “Tem coisas que têm seu valor avaliado em quilates, em cifras e fins. E outras não têm o apreço, nem pagam o preço que valem pra mim.”
Acho que hoje entendo esse trecho de uma maneira diferente. Algumas das coisas mais valiosas que recebi não foram compradas. Foram vividas. Estão nas lembranças, nas pessoas, nos lugares, nos ensinamentos e naquele sentimento difícil de explicar de saber de onde a gente veio.
Talvez seja justamente por isso que o nosso hino tenha tanta força. Quando milhares de pessoas cantam juntas, não estão apenas repetindo uma música. Existe ali história, família, memória, pertencimento e continuidade.
E talvez hoje eu entenda melhor o que significa ter orgulho de ser gaúcho. Não é acreditar que somos melhores. É reconhecer o privilégio de carregar uma cultura tão forte e também assumir a responsabilidade de não deixar que ela se perca no ritmo da vida.
No fim, algumas das nossas maiores façanhas talvez não sejam aquelas que entram nos livros de história. São aquelas que conseguimos passar de uma geração para outra.
E essa é uma tradição que eu quero voltar a viver mais intensamente e, quem sabe um dia, ter o privilégio de passar adiante.
Filipi Erthal
Filipi Erthal é fundador da Erthal&Co, desenvolvedora de negócios com base no Instituto Caldeira, em Porto Alegre. Por quase seis anos tocou um posto de combustíveis em Montenegro. Tem trajetória em varejo, indústria e negócios próprios, formação em Administração e pós em Neurociência e Comportamento. Hoje atua como parceiro estratégico de líderes que constroem no mundo real.